quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Salve Geral mantém Brasil afastado do Oscar

Não será dessa vez que a cobiçada estatueta da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood na categoria de Melhor Filme Estrangeiro virá para o Brasil. Mais: Salve Geral - O Dia Em Que São Paulo Parou (2009), filme selecionado por cinco pessoas da área para representar o país no Oscar de 2010, sequer será indicado para disputar uma vaga na disputa. Não tem cacife para isso. Dirigido pelo experiente diretor Sérgio Rezende, o mesmo de O Homem da Capa Preta, Guerra de Canudos e Zuzu Angel, para ficar nesses três, o filme peca especialmente pelo roteiro mal engendrado. Roteiro esse que quebra a espinha dorsal do filme e prejudica a narrativa.
O longa conta a história da viúva e professora de piano Lúcia (Andréia Beltrão), que sonha em tirar o filho Rafael (Lee Thalor) da prisão. Em uma das visitas à penitenciária, ela conhece a advogada Ruiva (Denise Weinberg), envolvida em crimes. As duas ficam amigas e Lúcia é, então, usada em missões ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Por precisar do dinheiro, ela aceita realizar as tarefas e nas idas e vindas conhece e se envolve amorosamente com o Professor (Bruno Perillo), o chefe do PCC.
Quando o Governo de São Paulo decide transferir, de uma só vez, dezenas de presos e seus chefes para penitenciárias de segurança máxima no interior do Estado, em retaliação ao assassinato de um juiz corregedor, uma ordem é enviada para que seus integrantes livres realizem uma série de ataques em pleno Dia das Mães de 2006 e, assim, deixarem a capital sitiada. Na gíria da criminalidade era preciso um salve geral. A operação da organização criminosa chocou o país inteiro e transformou Sampa num inferno de ônibus incendiados, ataques a bancos, delegacias, postos policiais e residências, resultando um saldo de pelo menos 152 mortos.
A história de Lúcia e de seu filho preso foi a saída que Sérgio Rezende e a roteirista Patrícia Andrade encontraram para dar um sentivo narrativo ao filme. Aí é que a coisa degringolou, vez que houve um hiato entre intenção e ação. A ideia ficou no meio do caminho. Até o início dos ataques, muito verbo e pouca ação. O elenco não compromete. Sérgio Rezende é ótimo diretor de atores. Também tecnicamente o filme é bem cuidado, com belas imagens aéreas e terrestres de São Paulo e de uma Avenida Paulista deserta. Mas ficou faltando algo. Os indicados à 82ª edição do Oscar serão anunciados em 2 de fevereiro de 2010; a entrega dos prêmios da Academia ocorre no dia 7 de março de 2010, no Kodak Theatre, em Los Angeles, com transmissão ao vivo para 200 países. Reafirmo: a vaga ao Oscar 2010 está comprometida. Já era. E salve geral.





segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Café do Vento encanta amantes da música instrumental potiguar

O cenário não podia ser melhor. Afinal, o Parque das Dunas é o único lugar da Cidade dos Reis Magos que dá para salvar o modorrento domingo natalense. Então, salve geral. A volta do projeto Som da Mata revestiu-se de êxito total com o som do quarteto Café do Vento, que lotou as dependências do anfiteatro ou concha acústica do Parque. Foi a primeira vez que senti o aroma do Café ao vivo. Já tinha visto um show na TV e aparições outras na telinha, mas ao vivo é outro lance. O quarteto mistura o popular e o erudito em doses certas apoiado fortemente na percussão, violão e violino. Resultado: um som instrumental personalíssimo. Depois de onze menos no limbo, o Som da Mata renasce com força total. Valeu o Café puro. Sem açúcar nem adoçante.

No retorno para casa, revi o DVD "Conto de Verão", do cineasta francês Eric Rohmer, e gostei ainda mais da obra. Faz parte da série Conto das Quatro Estações. O forte de Rohmer são os diálogos inteligentes e a exata noção da condição humana, muitas vezes devassada pelas relações conjugais. O filme vai fundo nos recônditos da alma humana. Também conheço "Conto da Primavera". Este mais denso e filosófico. Vale a pena conferir. C'est tout.

sábado, 3 de outubro de 2009

Tempos de paz surpreende pelas atuações convincentes




Rio de Janeiro. Abril de 1945. Estertores da II Guerra Mundial. Os combates já cessavam na Europa, mas o Brasil ainda estava "tecnicamente" em guerra. Para fugir do confronto, imigrantes europeus chegam aos montes à "terra prometida", indo diretamente para o porto do Rio. É lá que os aguarda Segismundo (Tony Ramos), interrogador alfandegário e ex-torturador da polícia política de Getúlio Vargas. Por falar o português, o ex-ator polonês Clausewitz (Dan Stulbach) é detido na sala de imigração do porto, onde se desenrola um combate particular entre ele e Segismundo. Como se não bastasse recitar poema de Carlos Drummond de Andrade, em bom português, Clausewitz é ainda confundido com um nazista fugitivo.

O fim da Guerra, por ironia do destino, é o que tira a paz de Segismundo. Ele teme a vingança de seus ex-torturados. E hoje chefe da imigração na Alfândega do Rio de Janeiro, Segismundo é quem decide quem entra ou não no país. Clausewitz, que conseguiu escapar do nazismo depois de conhecer e experimentar os horrores da guerra, terá que usar todo seu talento de ator para provar que não é um seguidor de Hitler. O filme retrata um período crítico da história brasileira, a Era Vargas.

Tempos de paz (Brasil, 2009) é filme que prende a atenção do espectador do início ao fim. Com atuação impecável de Dan Stulbach e também de Tony Ramos, com todo mérito, o filme vai crescendo em dramaticidade até o ex (?) ator Clausewitz conseguir o tão sonhado carimbo no passaporte ao fazer Segismundo chorar, ao ser desafiado pelo próprio, interpretando trecho de uma peça do dramaturgo espanhol Calderón de La Barca. A sequência explicitamente teatral é tocante e impressiona pelo realismo e verdade que o ator Dan Stulbach emprega. Interpretação digna de prêmio internacional.

Adaptado para o cinema pelo veterano diretor Daniel Filho, a partir da peça teatral homônima do dramaturgo Bosco Brasil, que também assina o roteiro, Tempos de paz toca pela mensagem de esperança num mundo melhor e menos hipócrita, pela direção e atuação do elenco, incluindo ainda o próprio diretor Daniel Filho (Doutor Penna) e Louise Cardoso (Clarissa). Antes dos créditos subirem, são mostradas fotos e a identificação de vários imigrantes que vieram dos seus países para o Brasil fugidos da guerra, entre eles o ator e diretor polaco Zbigniew Ziembinski (1908 - 1978), o homem que revolucionou o teatro brasileiro, propositalmente o último a aparecer. Tocante. Como o filme.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Perdidos e achados


Enfim,
sobreveio a paixão
trazendo brasa no olhar,
intenção em cada gesto.
Ainda assim
procuro no vão desespero
a pedra filosofal
– fórmula imperfeita da química de Deus -
mas só encontro em mim
o alquimista de possíveis
perdidos e achados.
Paulo Jorge Dumaresq

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Desesperança


Depois que o mar negou-lhe os sentidos,

o homem sem alma fechou-se na dúvida

de tomar vinho ou vinagre,

mas preferiu aguardente de pera,

secando, (de)pois, os lábios pálidos

da desesperança com a mão do destino.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sessão privê de "À Deriva"


Confesso que meu grande sonho no escurinho do cinema era assistir a um filme absolutamente sozinho. Hoje, na sessão das 16h50, do Moviecom Praia Shopping, realizei o desejo acalentado durante anos. O filme "premiado" foi À Deriva (Brasil, 2009), do cineasta pernambucano Heitor Dhalia. Saí da sala regozijando-me pela concretização do sonho e por ter assistido a um filme digno do ingresso pago.


Ainda confesso que fui sem muito ânimo conferir a fita, vez que lera críticas desfavoráveis, comentários desairosos e vira o trailer e não gostara. À Deriva sustenta-se no ótimo roteiro de Heitor Dhalia que nos surpreende com revelações e surpresas do início ao fim. A história parece banal e "batizada", mas o pulo do gato é o roteiro inventivo de Dhalia, o que só fez corroborar meu pensamento de que os cineastas pernambucanos dominam atualmente o cinema brasileiro, vide o candidato a gênio Cláudio Assis.


O enredo se passa numa praia de veraneio e gira em torno da desagregação do casal Mathias (Vincent Cassel), escritor francês radicado no Brasil, e a professora Clarice (Débora Bloch), com seus três filhos. A adolescente e primogênita Filipa (Laura Neiva) presencia todo o complexo processo de implosão do casamento, especialmente o namoro do pai com a também veranista americana Angela (Camilla Belle). Nesse triângulo amoroso, Filipa vai descobrindo ela mesma desejos, experimentando frustrações e o quanto é difícil sustentar uma relação conjugal desgastada pelo tempo. O plus de Heitor Dhalia vem no final da trama quando Filipa conta para a mãe que o pai tem um caso extraconjugal com a tal Angela, supostamente o pivô da separação. Clarice soterra o "heroísmo" e a cumplicidade de Filipa ao revelar que o pivô da separação, na real, é um aluno dela 10 anos mais novo. É demais para a adolescente que se entrega ao barman (Cauã Reymond) do restaurante frequentado pela família, numa atitude mesclada de decepção, revolta, descoberta do prazer e autoafirmação.


Heitor Dhalia estreou na direção de um longa-metragem em Nina (2004), cujo roteiro é livremente inspirado no livro Crime e Castigo, de Fiódor Dostoievski; seu segundo filme, O Cheiro do Ralo (2007), teve como base o livro homônimo de Lourenço Mutarelli. À Deriva, terceiro filme, é também seu projeto mais pessoal. Muitos são os méritos do celuloide, a começar pela escolha do elenco, com o ótimo trio Vincent Cassel - com seu sotaque afrancesado -, Débora Bloch e a estreante Laura Neiva; além da fotografia deslumbrante, figurinos de Alexandre Herchcovitch e a música assinada por Antonio Pinto.


À Deriva teve pré-estreia na 62a. edição do badalado Festival de Cinema de Cannes, dentro da mostra Um Certo Olhar, e na Riviera foi bem recebido. Filipa junta-se às minhas outras duas ninfas/musas estreantes do cinema nacional: Silene (Cristina Aché), de Os Sete Gatinhos (1980), e Alice (Flávia Monteiro), de A Menina do Lado (1987). Para Nabokov babar na gravata.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Mistério

Morte sorte norte


Por que palavras encerram enigma


se sugerem descoberta?


Seria isso obra de Deus


ou de poeta ressentido?


Aviso aos desavisados: caríssimos,


o mistério tem segredos que não


sabemos a cor de cor.


Dia é claro; outro, escuro;


quando respiramos paixão,


sentimento limite


que desorienta e descaminha


norte sorte morte