domingo, 25 de outubro de 2009

Poema sem nome (Um)

Um talvez anjo da guarda
desça à terra para guiar-me até
os céus
onde tudo que sei sobre
me apavora
e os olhos cegos
tentam decifrar
em vão
o olhar do Deus furibundo

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Bastardos inglórios" traduz mediocridade de Tarantino


Para quem ainda não foi ao cinema assistir Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, França/Alemanha, 153 min, 2009) vale a dica: não espere um filme de guerra à feição tradicional. O celulóide do diretor Quentin Tarantino é, antes, uma obra de invenção cinematográfica bem-humorada, para não dizer comédia, sobre os primeiros anos da ocupação da França pela Alemanha. Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) testemunha a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz). A menina escapa por pouco da chacina e foge para Paris, onde assume uma identidade falsa e se torna proprietária de um cinema.


Em outro lugar da Europa, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt) organiza um grupo de soldados americanos judeus para praticarem atos violentos de vingança. Posteriormente chamado pelo inimigo de “Os bastardos”, o esquadrão de Raine se une à atriz alemã Bridget von Hammersmark (Diane Kruger) em uma missão para derrubar os líderes do Terceiro Reich. O destino conspira para que os caminhos de todos se cruzem no cinema de Shosanna, onde ela pretende colocar em prática seu próprio plano de vingança.


Bastardos Inglórios é um autêntico Tarantino: ação, humor, violência, vingança e citações/homenagens a filmes clássicos e/ou trash. Os diálogos são interessantes e até tentam apoiar a frágil narrativa, mas não conseguem porque a fragilidade (da narrativa) é tanta que o filme acaba naufragando em águas calmas. A grotesca caracterização de Hitler e Goebbels tenta ridicularizar todos os tiranos mundiais. Até consegue, arrancando risos na plateia. É pouco. Considerado o filme "maduro" do diretor, Bastardos Inglórios conta com elenco estelar, tendo como principal nome o canastríssimo Brad Pitt (talvez um dos piores trabalhos do galã).


Quentin Tarantino definiu seu filme como um spaghetti western feito com a iconografia da Segunda Guerra Mundial. Sua intenção era homenagear um subgênero, o ‘macaroni combat’, representado por Enzo G. Castellari em Quelo Maledeto Treno Blindato (Inglourious Basterds), de 1978. Tarantino adora colagens musicais. Como a maioria dos seus filmes, a trilha de Bastardos não foge à regra. Resumo da ópera: uma obra para divertir casais de namorados. Nada mais que isso. Ainda fico com Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, EUA, 99 min, 1992).


A natureza da palavra


A palavra é mais palavra
quando dita dura machuca

Não é letra morta viva
a palavra verbo ação

Antes é poder mito síntese
– Zeus Castor Pólux

É a palavra instrumento grave e agudo
capaz de cortar o espírito em capítulos

Na palavra há fogo água ar metal e terra
onde me enterro terno... e eternamente
incomunicável

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Paradoxo


Teus olhos lançados aos meus revelam dragões.
Vejo fogo-fátuo na lente de tua rubra íris verde.

Ante o espanto,
ouço teu olhar emblemático,
a dizer tudo e não dizer nada,
na afirmação da dúvida.

É o amor – fluida chama –
que absolve o espírito
e condena a matéria,
na batida sincopada
do coração contraditório.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Poema final

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo

e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,

o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.

será
que os sinos
dobrarão por ele?

Moacy Cirne

sábado, 17 de outubro de 2009

Fogo destroi 90% das obras de Hélio Oiticica

Oiticica, teu espírito tem labaredas imensas.


De outra, perdoe a negligência e a podridão humana.


Afinal, "pureza é um mito".


Que sua obra descanse em paz.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Coração vagabundo" desnuda universo particular de Caetano

Caetano Emanoel Viana Teles Veloso é um artista singular. E genial. Mais do que isso: um ser humano fascinante e com ideias próprias e originais sobre quase tudo. E é sobre "quase tudo" que Caetano discorre no documentário Coração Vagabundo (Brasil, 60 min, 2008), resultado sintetizado de 56 horas de material audiovisual. A câmara do diretor Fernando Grostein Andrade devassa a intimidade do artista, acompanhando-o na turnê de divulgação do álbum A Foreign Song, por São Paulo, Nova York e Japão, entre 2003 e 2005. Diante da câmara, o filho de Santo Amaro da Purificação se prepara nos bastidores e confessa alguns momentos de insegurança – como quando lamenta supostas falhas no seu inglês numa entrevista no rádio.
Andando pelas ruas de Nova York e Osaka, ele dispara comentários sobre sua formação, polemiza à distância com Hermeto Paschoal e encontra fãs estrangeiros capazes de cantarolar suas músicas. São ouvidos sobre ele amigos e admiradores como Pedro Almodóvar, que o escalou para uma cena de seu filme Fale com Ela, David Byrne e Michelangelo Antonioni – que recebeu do compositor uma música em sua homenagem, antes de morrer, em julho de 2007. Aliás, a aparição de Antonioni em idade avançada é comovente.

Despretensioso, o documentário produzido por Paula Lavigne era para ser um making of da turnê do álbum de clássicos do cancioneiro americano ou um DVD com um concerto ao vivo. Em Nova York, o cantor se prepara para cantar no Carnegie Hall junto a David Byrne (ex-Talking Heads). Ele relata a dificuldade que teve ao falar a um programa de televisão. O cantor ainda discorre sobre a influência americana na música mundial e contesta uma entrevista de Hermeto Pascoal, que o chamou de "musiquinho" e disse que a música brasileira é mais importante do que a americana. Por sua vez, Caetano (re)afirma que a música america e a cubana são superiores à música brasileira.

Nos camarins, após o show no Carnegie Hall, Caetano recebe a übber model Gisele Bündchen e se encanta. "Me dá o telefone da Gisele, Paula", pede à esposa, que nega enciumada. No Japão, o cantor se aproxima de um penhasco e começa a relatar que sua vida pessoal o deixa triste. O fim do casamento com Paula Lavigne é a resposta. Em certo momento, Caetano fala que não gostaria de morar fora do Brasil, mas, caso tivesse de se mudar, moraria em Nova York ou em Madri. Almodóvar dá seu depoimento. Fala que Paula é uma inspiração para seus personagens. "Ela é forte, exuberante, decidida", diz o cineasta. Além das imagens das apresentações, o diretor Fernando Andrade deixa o músico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no exterior, a relação com Almodóvar, a separação de Paula Lavigne e o completo desprezo pelas religiões.

Caetano não espera; já está falando de novo.