sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Para sempre Torquato!!!


Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores. É destruir a linguagem, e explodir com ela!


Os poetazinhos que proliferam por aí, nestas horas de kyries e medos mixurucas, não passam de free-lancers do funcionalismo público: poetas, pintam muito pouco.


Poetar é simples. Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena... Difícil, é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil, é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair sua poesia que, pensando bem, não vale nada, se você está sempre pronto a temer tudo: menos o ridículo de declarar versinhos sorridentes, e sair por aí, ainda por cima, sorridente mestre de cerimônias, herdeiro da poesia dos que levaram a coisa até o fim, e continuam levando, graças a Deus.


Poesia! Acredite na poesia e viva! E viva ela. Morra por ela se você se liga, mas, por favor, não traia. Resista, criatura! E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar.
Torquato Neto

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Cor do Paraíso: metáfora sobre a liberdade


Na minha ideia filmes nos levam a uma reflexão sobre a condição humana. Em verdade, penso que é esse o propósito do cinema. Mesmo a pior comédia hollywoodiana - qualquer uma com Wesley Snipes, por exemplo - sempre deixa algo para ser questionado. E como. Faço este preâmbulo como introdução ao comentário crítico do filme A Cor do Paraíso (Rang-e Khoda, Irã, 86 min., 1999), do consagrado diretor Majid Majidi. Talvez o filme não seja novidade para aqueles que acessam este blog. Mas, morando em Natal, só agora tive a honra de ver a obra em DVD. Encantador. É o mínimo que posso afirmar.
A Cor do Paraíso é um dos mais bonitos e emocionantes filmes dos últimos tempos. Por meio da história de Mohammad (Mohsen Ramezani) um menino cego, de verdade, Majid Majidi constroi uma bela metáfora da condição humana e, por conseguinte, da liberdade e do Irã que não conhecemos, com seus bosques, florestas, flores, mar e pássaros, o que resulta numa fotografia deslumbrante. Mohammad mora numa escola para deficientes visuais. Nas férias, volta para seu vilarejo no interior do país, onde convive com as irmãs e sua adorada avó. O pai, que é viúvo, se prepara para casar novamente. Mohammad é um garoto muito vivo, que tem uma enorme sensibilidade, sobretudo para se relacionar com pássaros que sugerem liberdade. Seu jeito simples de "ver o mundo" é uma lição de vida.
Com o argumento de "ser o melhor para o garoto", o irascível pai de Mohammad o tira do convívio familiar e o manda para uma marcenaria, onde o mestre também é cego. Num diálogo comovente, o garoto questiona Deus e sua própria condição de cego, afirmando que ninguém gosta dele por ser deficiente visual. De arrepiar. Neste ínterim, sua avó morre e o pai leva um pé na bunda da noiva. Só resta ao genitor de Mohammad, trazê-lo de volta para o vilarejo. Então, o pior acontece. A ponte de madeira cede e Mohammad e cavalo caem ribanceira abaixo. Depois de descer a correnteza do rio atrás do filho, o pai o encontra na faixa de areia. Ele abraça o rebento aparentemente morto. No fim da cena, o menino mexe a mão. Metáfora de esperança.
A cegueira de Mohammad é a cegueira de nós ocidentais que pensamos que a liberdade é "uma calça velha azul e desbotada". O jeans nosso de cada dia nos cega e idiotiza diante de uma cultura "estranha" como a iraniana. Majid Majidi não é um qualquer. Sabe onde está a ferida e coloca o dedo nela. O Irã alegre e colorido do filme é o país que o diretor sonha e que a mídia esconde. Do Irã conhecemos guerras, destruição, deserto, montanhas íngremes e fanatismo religioso. Com outra obra-prima no currículo, o fabuloso Filhos do Paraíso, o diretor direciona sua lentes para um Irã humano. O Irã de Mohammad e de suas irmãs com sonhos de liberdade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Poema de Myriam Coeli


Marinha

O mar, sacudido pela viração, desata seu canto. As rochas parecem mover-se palpitantes — pássaros de pedras — na solidão. Agita-lhes os braços esverdeados das ondas inquietas. Braços de ondas que se enroscam nas pedras e oferecem flores de espumas. O mar se movimenta em seu volume verde vivo. Canta e vive. Sacode-se em ondas e dança na tarde, numa ilimitada alegria de luz. Sacode-se, dança e vive. Palpitante de vida, trêmulo de músicas, o mar desliza na tarde numa tocante comunicação de beleza. Há pássaros, gritos de pássaros, trinados de pássaros em seu canto. Há maior que o canto, a solidão imensa desse mar que se arrasta numa inconseqüente alegria, numa inútil palpitação e numa incompreendida harmonia. O mar é o mistério. É a própria solidão.
As pedras caminham. Há uma procissão de rochas no silêncio da tarde. Elas caminham pelo mar, sem destino, caminham dia e noite, incansáveis, insofridas. Perdem-se sob uma nuvem de espumas, reaparecem escuras e desalentadas e caminham em sua resignação.
O mar apenas se importa com o canto. Porém, há outros motivos que se harmonizam com sua indecifrável beleza. Velas douradas que se incendeiam na luz do sol que envelhece. Peixes de dorso brilhante fazem cambalhotas, traçam elipses com seus corpos esguios e se aprofundam nas águas inconstantes. Búzios coloridos guardam vozes estranhas e toda uma vegetação palpita e se desenvolve no segredo dessas águas milenares...

Myriam Coeli

(In A República, 20/ 10/ 1957)

sábado, 31 de outubro de 2009

"Desejo e Perigo" confirma ótimo momento do cinema chinês


Engana-se quem pensa que o cinema chinês perdeu o fôlego depois dos clássicos dos anos 1980/90. Desejo e Perigo (Se Jie / Lust, Caution, China / Estados Unidos, 157 min, 2007), de Ang Lee, em cartaz na Sessão de Arte do Cinemark (Midway Mall), contradiz afirmação neste sentido. O cinema chinês continua nos surpreendendo positivamente. A rigor, a cinematografia de Ang Lee se sustenta fortemente nas relações humanas e suas vertentes, como em trabalhos anteriores, notadamente Razão e Sensibilidade e O Segredo de Brokeback Mountain, para ficarmos nesses dois títulos. Desejo e Perigo se apoia num casal de amantes. Ela é Wong Chia Chi (Wein Tang) uma jovem estudante cujo pai foge para a Inglaterra durante a ocupação da China pelos japoneses durante a 2a Guerra Mundial. Ele é Yee (Tony Leung Chiu Wai, de "Amor À Flor da Pele"), colaborador dos japoneses e notório torturador. Wong é uma jovem estudante quando se envolve com um grupo de teatro formado em Hong Kong por jovens que montam peças patrióticas.

Com a liderança ingênua de Kuang (Wang Lee-Hom), o grupo arquiteta plano para matar Yee, e a jovem está metida nisso até as calcinhas. Ela se passará por uma mulher casada que deverá seduzir a vítima, deixando-a vulnerável para os amigos o executarem. Assumindo a identidade de Mak Tai Tai, a moça entra na vida da família Yee, se torna amiga da mulher e, aos poucos, o seduz. Mas o grupo de jovens da resistência é mal organizado e acaba se dissolvendo. Tudo isso regado a cenas de violência explícita. Só anos mais tarde, em Xangai, o plano será retomado, agora coordenado por uma resistência veterana e mais bem organizada. A partir daqui, o relacionamento entre Yee e Mak ganha contornos tórridos de sadomasoquismo, com cenas de uma sexualidade tão contundente quanto explícita, que causou polêmica por onde passou. Lee usa o sexo para chegar a um fundo psicológico de Mak e Yee. O filme não mascara e, no fundo, esse é o seu tema: o sexo como instrumento de dominação e manipulação. Aliás, desde o pecado original é assim.

Plasticamente perfeito, o filme tem direção de arte primorosa. Louve-se ainda a direção de fotografia a cargo de Rodrigo Prieto. A música de Alexandre Desplat dá todos os climas possíveis. Ah, o roteiro, assinado por James Schamus, é baseado num conto de Eileen Chang, uma das grandes escritoras chinesas do século 20. A trama transita entre o romance e a espionagem, tendo a política como pano de fundo. Nos últimos anos, Lee se tornou um dos principais cineastas da atualidade. Em 2007, recebeu seu segundo Leão de Ouro, no Festival de Veneza - o primeiro foi conquistado dois anos antes por "O Segredo de Brokeback Mountain". Desejo e Perigo é uma das obras mais contundentes do diretor. Em que pese ter conquistado o Leão de Ouro, só em maio deste ano que o filme chegou ao circuito comercial brasileiro. Em Natal, apenas em outubro. Para nossa sorte e regozijo. Amém. Aleluia.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Câmera Cascudo


Amanhece na Ribeira
Entoam os pássaros o cordel
Passam homens gritando o pregão
Levita o bonde acima dos trilhos progresso
E os escoteiros cantam o mesmo estribilho.

A tudo retina Cascudo. Olhos atentos lançados aos livros, ao cais, ao rio.

Cai a tarde na Junqueira Aires
Entardece no Potengi
Tilinta longe o chocalho do boi-calemba
Há barulho de tiros de fuzil no ar
E a televisão exibe sexo explícito e violência.
Da sacada, enquadra o mundo Cascudo, baforadas no charuto
E as mãos bailando no teclado.

É noite na Natal velha
Sublima-se o firmamento
Ilumina a lua cheia a cidade
Jejuam as prostitutas nas travessas
E a surdez dos homens é absoluta.

Flutua Cascudo entre nuvens de tabaco e monóxido de carbono,
Turva está a vista,
E carnavalizado o folclore.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Crônicas inéditas" de Manuel Bandeira

Quem me conhece na intimidade sabe que Manuel Bandeira (1886-1968) é o meu poeta brasileiro preferido. Do Bandeira poeta, li tudo. Assino embaixo e recomendo. Não há outro que o faça frente em língua portuguesa falada no Brasil. No meu ponto de vista, claro. Do cronista Bandeira pouco sabia até ganhar do amigo Carlos Henrique Leiros Crônicas Inéditas I (São Paulo, Cosac & Naify, 2008, 464 pp., 37 ils.). Doce alumbramento. Publicadas em diversos jornais brasileiros, entre 1920 e 1931, as 113 crônicas reunidas no volume, até então inéditas em livro, tratam de quase tudo: música, literatura, arquitetura, cinema, artes plásticas, política, carnaval, festas populares e até concursos de miss.

Antenado com sua época, Bandeira nos brinda neste primeiro volume - são dois - com crônicas inteligentes escritas sob a ótica do modernismo. Em alguns momentos, exerce o papel de crítico ferrenho; em outros, exegeta cordial, mas sempre demonstrando um olhar particular sobre cada assunto abordado. No livro, Bandeira nos dá uma ideia exata ou quase isso do pensamento intelectual brasileiro na década de 1920 e início dos anos 30. A organização, posfácio e notas são de Júlio Castañon Guimarães. Merece constar em qualquer biblioteca. Recomendadíssimo!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cadê o nome da autora do Auto do Natal 2009?

Está mais que na hora da Fundação Cultural Capitania das Artes divulgar oficialmente o nome da autora do texto do Auto do Natal 2009 e do diretor do espetáculo, até porque não é mais novidade para ninguém. Outra: também deve vir a público explicar o porquê da escolha do texto da dramaturga Clotilde Tavares, mesmo ela não tendo participado do edital do Concurso de Dramaturgia Auto do Natal 2009. O que houve? Qual papel coube aos jurados do Concurso? O que há por trás dessa manobra e demora da Funcarte? E os ensaios vão iniciar faltando quantos dias para o evento? Com a palavra a douta instituição de cultura do município.