quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Só Egberto Gismonti salva



A espera valeu a pena. Depois de hiato de 30 anos, ontem (10.11) tive o prazer de rever o multi-instrumentista Egberto Gismonti no palco do Teatro Alberto Maranhão. A primeira vez foi em 1979 pelo Projeto Pixinguinha. Egberto viera com o fantástico grupo Academia de Danças, incluindo músicos da magnitude de Mauro Senise, Zeca Assumpção, Robertinho Silva e Aleuda, dividindo o palco com as cantoras Olivia Byington e Marluí Miranda. Dos cinco shows realizados, vi três. Algo para guardar eternamente na memória. Simplesmente olímpico.

Ontem Egberto se apresentou solo. Foram dois momentos mágicos e sublimes. No primeiro, o mestre e seus violões de múltiplas cordas. O movimento dos dedos acompanhando os voos da mente e eu apoplético na poltrona diante do nosso instrumentista maior. A agilidade/genialidade continua a mesma. No segundo momento, o mestre tocou o piano. Outro show de excelência musical. Identifiquei as composições "Karatê", "Palhaço", "Baião Malandro" e as releituras dos clássicos de Villa-Lobos, como "O Trenzinho do Caipira" e a "Bachiana nº 5". Noite para não esquecer Gismonti e noite para esquecer a mediocridade das nossas fundações culturais, visto que a arte venceu a barbárie.

É de bom tom registrar que o show de Egberto só foi possível graças ao Banco do Brasil, por meio do Centro Cultural Banco do Brasil itinerante, que patrocinou a vinda dele e da cantora mineira Déa Trancoso responsável pela abertura com seus "meninos e meninas". Déa faz uma música mineirinha e ribeirinha das bandas do Vale do Jequitinhonha que vale a pena ser ouvida/sentida. O projeto chama-se Vozes de Mestres - Festival Internacional de Cultura Popular. Ponto para o CCBB que respeita a cultura brasileira. Ai, meu Deus, como seria bom uma filial do CCBB em Natal. Talvez muita coisa mudasse culturalmente neste burgo cascudiano. Agora, quero ver na próxima sexta a diva Cleyde Yáconis no espetáculo "O caminho para Meca", no mesmo palco. Assim o mês de novembro estará ganho. Amem/amém.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A moça que chorava no metrô


Uma das grandes vantagens das mulheres sobre nós é a coragem, o destemor, de chorar em público. Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços, pobres moços... Não guardam as lágrimas para depois, como sempre adiamos, não levam as lágrimas para chorar escondidos em casa.

Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança. As mulheres não, falo da maioria das moças, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente choram.

Como invejo as lágrimas sinceras das fêmeas.

Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em cachoeira, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque.

Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama heavy metal da existência.

Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno.

Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares... e chorarem um atlântico diante de uma alma perra, de uma alma cachorra, de alma vira-lata e sem cuidados, essa é a grandeza.

Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nos busões, nas malocas, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros. O medinho do macho diante do pênalti que vale uma vaga no torneio da dignidade.

Triste dos que acham que não levam a sério, que tratam como sintomas da TPM e chiliques do gênero, que fracasso. Ora, até mesmo os choros de varejo, não importam as causas, são comoventes. Chorar engrandece. Fazer amor depois de lágrimas, então, é sentir o sal da vida sobre os olhos, romanticamente, sem medo de ser ridículo, brega, cafona, São Waldick nos proteja, amém.

Coitados dos que escondem suas lágrimas

Acabei de testemunhar uma dessas lindas e corajosas moças, chorava no metrô da avenida Paulista, aqui entre a Consolação e o Paraíso, as estações que nos separam.

Por que chorava aquela moça?

Sempre acho que todo choro é ou deveria ser por amor, que me perdoem a pobre rima antiga com a dor.

Uma grande dívida nunca nos põe a chorar de verdade. Por um familiar, choramos diferente. Desemprego? Não. Se não teríamos um Tietê, um Capibaribe, um Paraíba, um São Francisco a cada segunda-feira, cada esquina, lágrimas que manchariam a tinta dos classificados e seus quadradinhos lógicos, portas na cara, quem sabe da próxima, projeto ilusões perdidas...

A moça não escondia os soluços do choro. Terá discutido a relação, a velha D.R., à boca da estação Paraíso? Veste roupa de trabalho sério, e chora. Daqui a pouco estará sentada na sua cadeira de secretária, exímia, bilíngue, a serviço da grana “que ergue e destrói coisas belas”.

Teria levado um pé-na-bunda, um fora? Teria visto o casamento pelo binóculo do sr. Nelson Rodrigues? Perdoa-me por me traíres?

A moça que chorava no metrô sabia que o amor é como as estações da avenida Paulista, começa no Paraíso e termina na Consolação.


Xico Sá

domingo, 8 de novembro de 2009

Poema de Zila Mamede

Bois dormindo


A paz dos bois dormindo era tamanha

(mas grave era tristeza do seu sono)

e tanto era o silêncio da campina

que ouviam nascer as açucenas.



No sono os bois seguiam tangerinos

que abandonando relhos e chicotes

tangiam-nos serenos com as cantigas

aboiadeiras e um bastão de lírios.



Os bois assim dormindo caminhavam

destino não de bois mas de meninos

libertos que vadiassem chão de feno;



e ausentes de limites e porteiras

arquitetassem sonhos (sem currais)

nessa paz outonal de bois dormindo.



Zila Mamede

sábado, 7 de novembro de 2009

A respeito do Moviecom


Estou cada vez mais convencido de que Natal é um dos cus do mundo. Tem coisa que só ocorre na Cidade dos Reis Magos. Ontem, por exemplo, me dirigi ao Moviecom Praia Shopping para prestigiar a estreia de O Visitante (The Visitor, EUA, 104 min., 2007), em sessão única às 17h15. Na bilheteria fui informado pela funcionária que o filme não havia chegado. Argumentei que tinha cortado a cidade de leste a sul (Cidade Alta-Ponta Negra) para ver o tal filme. A moça, coitada, como solução me indicou o hollywoodiano Código de Conduta que está em cartaz praticamente no mesmo horário de O Visitante. Quase ri na cara dela. Logo eu que detesto cinemão ou algo parecido. Disse à funcionária que só assistia a filmes de arte e fui flanar no shopping. Não é a primeira vez que isso acontece comigo no Moviecom. Respeito ali com o consumidor passa longe. Dia desse ocorreu o mesmo em relação ao ótimo filme israelense O Limoeiro, que depois assisti no Cinemark, outro complexo de cinemas que também não respeita o cliente. Enfim, moro em Natal, cidade comandada por Micarla de Sousa e que tem como presidente da Capitania das Artes o jornalista Rodrigues Neto. Pouco, humanidade?

Bom, para quem quiser apostar ainda no Moviecom e no filme em questão, segue abaixo a sinopse. Ah, não esqueçam de desligar os aparelhos sonoros na sala de exibição. É importante.

O Visitante. Sinopse: Walter Vale (Richard Jenkins), um solitário professor de Connecticut, recentemente viúvo, vê-se forçado a regressar a Nova Iorque para assistir a uma conferência e encontra o seu apartamento de Manhattan ocupado por um jovem casal de imigrantes ilegais. Depois de esclarecida a intromissão, Vale convida o casal - um jovem músico sírio chamado Tarek e a sua namorada senegalesa - a ficarem temporariamente vivendo com ele. Uma improvável amizade acaba por se desenvolver entre o pacato Professor Vale e o vibrante Tarek, mas os bons momentos depressa são perturbados pela injusta prisão de Tarek e a ameaça da sua possível deportação. Vale, que está determinado a ajudar, inicia uma verdadeira cruzada pela libertação de Tarek.
Direção: Thomas McCarthy
Roteiro: Thomas McCarthy
Fotografia: Oliver Bokelberg
Música: Jan A.P. Kaczmarek
Edição: Tom McArdle

Elenco:
Richard Jenkins - Walter Vale
Haaz Sleiman - Tarek Khalil
Danai Gurira - Zainab
Hiam Abbass - Mouna Khalil
Marian Seldes - Barbara
Maggie Moore - Karen
Michael Cumpsty - Charles
Bill McHenry - Darin
Richard Kind - Jacob
Tzahi Moskovitz – Zev
Amir Arison - Senhor Shah
Neal Lerner - Martin Revere

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Para sempre Torquato!!!


Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo, sem medo. É inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores. É destruir a linguagem, e explodir com ela!


Os poetazinhos que proliferam por aí, nestas horas de kyries e medos mixurucas, não passam de free-lancers do funcionalismo público: poetas, pintam muito pouco.


Poetar é simples. Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena... Difícil, é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil, é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair sua poesia que, pensando bem, não vale nada, se você está sempre pronto a temer tudo: menos o ridículo de declarar versinhos sorridentes, e sair por aí, ainda por cima, sorridente mestre de cerimônias, herdeiro da poesia dos que levaram a coisa até o fim, e continuam levando, graças a Deus.


Poesia! Acredite na poesia e viva! E viva ela. Morra por ela se você se liga, mas, por favor, não traia. Resista, criatura! E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar.
Torquato Neto

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Cor do Paraíso: metáfora sobre a liberdade


Na minha ideia filmes nos levam a uma reflexão sobre a condição humana. Em verdade, penso que é esse o propósito do cinema. Mesmo a pior comédia hollywoodiana - qualquer uma com Wesley Snipes, por exemplo - sempre deixa algo para ser questionado. E como. Faço este preâmbulo como introdução ao comentário crítico do filme A Cor do Paraíso (Rang-e Khoda, Irã, 86 min., 1999), do consagrado diretor Majid Majidi. Talvez o filme não seja novidade para aqueles que acessam este blog. Mas, morando em Natal, só agora tive a honra de ver a obra em DVD. Encantador. É o mínimo que posso afirmar.
A Cor do Paraíso é um dos mais bonitos e emocionantes filmes dos últimos tempos. Por meio da história de Mohammad (Mohsen Ramezani) um menino cego, de verdade, Majid Majidi constroi uma bela metáfora da condição humana e, por conseguinte, da liberdade e do Irã que não conhecemos, com seus bosques, florestas, flores, mar e pássaros, o que resulta numa fotografia deslumbrante. Mohammad mora numa escola para deficientes visuais. Nas férias, volta para seu vilarejo no interior do país, onde convive com as irmãs e sua adorada avó. O pai, que é viúvo, se prepara para casar novamente. Mohammad é um garoto muito vivo, que tem uma enorme sensibilidade, sobretudo para se relacionar com pássaros que sugerem liberdade. Seu jeito simples de "ver o mundo" é uma lição de vida.
Com o argumento de "ser o melhor para o garoto", o irascível pai de Mohammad o tira do convívio familiar e o manda para uma marcenaria, onde o mestre também é cego. Num diálogo comovente, o garoto questiona Deus e sua própria condição de cego, afirmando que ninguém gosta dele por ser deficiente visual. De arrepiar. Neste ínterim, sua avó morre e o pai leva um pé na bunda da noiva. Só resta ao genitor de Mohammad, trazê-lo de volta para o vilarejo. Então, o pior acontece. A ponte de madeira cede e Mohammad e cavalo caem ribanceira abaixo. Depois de descer a correnteza do rio atrás do filho, o pai o encontra na faixa de areia. Ele abraça o rebento aparentemente morto. No fim da cena, o menino mexe a mão. Metáfora de esperança.
A cegueira de Mohammad é a cegueira de nós ocidentais que pensamos que a liberdade é "uma calça velha azul e desbotada". O jeans nosso de cada dia nos cega e idiotiza diante de uma cultura "estranha" como a iraniana. Majid Majidi não é um qualquer. Sabe onde está a ferida e coloca o dedo nela. O Irã alegre e colorido do filme é o país que o diretor sonha e que a mídia esconde. Do Irã conhecemos guerras, destruição, deserto, montanhas íngremes e fanatismo religioso. Com outra obra-prima no currículo, o fabuloso Filhos do Paraíso, o diretor direciona sua lentes para um Irã humano. O Irã de Mohammad e de suas irmãs com sonhos de liberdade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Poema de Myriam Coeli


Marinha

O mar, sacudido pela viração, desata seu canto. As rochas parecem mover-se palpitantes — pássaros de pedras — na solidão. Agita-lhes os braços esverdeados das ondas inquietas. Braços de ondas que se enroscam nas pedras e oferecem flores de espumas. O mar se movimenta em seu volume verde vivo. Canta e vive. Sacode-se em ondas e dança na tarde, numa ilimitada alegria de luz. Sacode-se, dança e vive. Palpitante de vida, trêmulo de músicas, o mar desliza na tarde numa tocante comunicação de beleza. Há pássaros, gritos de pássaros, trinados de pássaros em seu canto. Há maior que o canto, a solidão imensa desse mar que se arrasta numa inconseqüente alegria, numa inútil palpitação e numa incompreendida harmonia. O mar é o mistério. É a própria solidão.
As pedras caminham. Há uma procissão de rochas no silêncio da tarde. Elas caminham pelo mar, sem destino, caminham dia e noite, incansáveis, insofridas. Perdem-se sob uma nuvem de espumas, reaparecem escuras e desalentadas e caminham em sua resignação.
O mar apenas se importa com o canto. Porém, há outros motivos que se harmonizam com sua indecifrável beleza. Velas douradas que se incendeiam na luz do sol que envelhece. Peixes de dorso brilhante fazem cambalhotas, traçam elipses com seus corpos esguios e se aprofundam nas águas inconstantes. Búzios coloridos guardam vozes estranhas e toda uma vegetação palpita e se desenvolve no segredo dessas águas milenares...

Myriam Coeli

(In A República, 20/ 10/ 1957)