terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Talvez...


Agora não seja a hora da morte

- esconderijo da vida –

mas o pesadelo de um homem nu,

sobre a ponte do abismo,

lançando-se de viés

ao encontro de si mesmo.


Talvez...

este não seja o ocaso de um suicida

- com seu cravo vermelho na lapela –

mas o acaso de um errante

mergulhado em sua impotência

na dúvida de ter, não ter


Amanhã.



Pista


Este louco querer não vem de mim

mas de você.

É febre terçã esse desejo mórbido de consumir-te a mim

mesmo.

Às vezes vira mania; outras tantas, obsessão.

Forte é meu coração que suporta as dores

de um homem de quarenta e cinco anos.

Esta é a única pista possível

para investigação sobre um suicida

acima de qualquer suspeita.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Rio Grande sem sorte


Vi recentemente no Jornal da Globo uma matéria sobre o sucesso que as bandas e cantores e músicos gaúchos fazem no Rio Grande do Sul sem precisarem sair de seu rincão para o Sudeste maravilha. Daí lembrei como a realidade no Rio Grande pobre é diferente da do seu primo rico. O poema abaixo, do poeta potiguar Bosco Lopes, é a mais completa tradução do Rio Grande cá de cima. Sem carpidagem, please.



Rio Grande



Rio grande da morte

Rio grande sem sorte

Rio grande sem forte

Rio Grande do Norte

Rio pequeno do Norte

Rio finito do corte

Rio seco de sorte

Rio Grande do Norte

Rio sem cais sem porto

Rio você já foi morto

Rio de leito torto

Rio chorando de fome

Rio triste sem nome

Rio cansado que some


(Bosco Lopes)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Site da UBE/RN no ar

Poeta, escritor e presidente da UBE/RN, Eduardo Gosson


Poetas, escritores, novelistas, dramaturgos, contistas, correi.


É chegada a hora de acessar o site da União Brasileira de Escritores - UBE/RN.


Para acessar é fácil. Basta digitar www.ubern.org.br e se deleitar com o conteúdo.

A entidade é presidida atualmente pelo escritor e poeta Eduardo Gosson.


Ele informa que "o site não está completo, porém vale a pena dar uma olhada".


Até o dia 18 de dezembro todas as seções estarão finalizadas.


Na condição de editor do site, asseguro que o mesmo está ficando decente tanto no visual quanto no conteúdo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Disperso (1)


Caia na real, Diabinha,
e destrua aquele sentimento psicodélico
composto de cores berrantes
antes que o meu amor preto e branco
pregue-lhe uma peça

sábado, 5 de dezembro de 2009

Mário Bortolotto é baleado em Sampa

Ironia do destino. Vi agora no Jornal Hoje que o dono do blog Atire no Dramaturgo, o paranaense Mário Bortolotto levou três tiros numa tentativa de assalto ao bar do Espaço Parlapatões na praça Roosevelt (centro de São Paulo), na madrugada deste sábado (5). Quatro assaltantes fizeram os frequentadores reféns e atiraram contra o dramaturgo e o músico Carlos Carcarah, segundo o relato de testemunhas. Na manhã deste sábado, Bortolotto passava por cirurgia na Santa Casa, na região central de São Paulo, e seu estado era considerado grave. Carcarah foi atingido na perna e levado ao hospital Sírio-Libanês.

Segundo relatos, passava das 5h e o bar já estava com as portas cerradas. Uma atriz entrava no local quando foi rendida por três homens. Após entrarem, os criminosos renderam quem estava no estabelecimento. Mário Bortolotto teria discutido com o assaltante e foi alvejado por três tiros no local que, além de um bar, abriga um teatro. O socorro às vítimas foi rápido, de acordo com testemunhas.
O escritor e dramaturgo Mário Bortolotto é um das referências do teatro underground do país. É considerado o representante contemporâneo mais próximo ao universo do autor Plínio Marcos, de linguagem cáustica e direta. Fã de filmes de pancadaria, Charles Bronson e Stallone, ele atua no teatro paulistano desde a década de 90. Atualmente um de seus textos “Brutal – Gente Vazia Pode Ser Muito Perigosa” está sendo encenado todas as sextas-feiras no Espaço Parlapatões. Ano passado teve a sua peça "Nossa Vida Não Vale um Chevrolet" adaptada para o cinema tornando-se o filme "Nossa Vida Não Cabe Num Opala". Adaptação que ele acha deplorável.

Em setembro eu o vi no Espaço Parlapatões sempre com as calças metidas dentro dos coturnos sem cadarços. Troquei uma ideia com ele essa semana pelo blog do mesmo. Mário é um outsider, gosta de beber bastante e admira Bukowski e Henry Miller. Pagou o preço por viver perigosamente numa selva de pedra e violência como a Paulicéia. Além de dramaturgo, Bortolotto é louco por blues e rock and roll - como eu - e vocalista da banda Saco de Ratos. Bom, fica a torcida para que ele se recupere logo. Melhoras, cara. De coração.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Página Moderna


Meu rock tem rugas!
É um arado
a germinar Joplins, Hendrix e Morrisons chapados.

Meu rock tem oitavas acima!
Nasce de trovões,
revoluções, Vietnãs.

Meu rock tem raios de Iansã!
É inebriante
a olhos míopes de paixão.

Meu rock tem convulsões!
Procria no vômito,
náusea, larva de vulcão.

Meu rock tem distorções!
É tonitruante
a ouvidos eunucos de confissões.

Meu rock tem artrópodes!
Morre de suicídio,
aguilhoado pelo próprio ferrão.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Não há antídoto contra "A Erva do Rato"


Não. Não há antídoto contra a erva do rato, o veneno. Também não há contra A Erva do Rato (Brasil, 2008), filme de Júlio Bressane em cartaz na Sessão de Arte do Cinemark Midway Mall. "Citar Artaud..., via Oiticica, ...cura = veneno" Bressane continua o mesmo. Não se rende ao cinemão de publicitários que assola o Brasil. Seis pessoas na sala e eu pensando na ousadia de um artista acreditar num projeto audiovisual que será totalmente ignorado pela massa medíocre e ignara e TALVEZ elogiado pela crítica e por algumas testemunhas pingadas.
O filme é lento, metafórico, difícil, como todo Bressane que se preze. Livremente inspirado em “A Causa Secreta” e “Um Esqueleto”, de Machado de Assis, funde dois elementos dos contos: a relação do homem com a morte e a incompreensível relação que estabelece com os animais. Ele (Selton Mello) e Ela (Alessandra Negrini) se encontram num cemitério à beira-mar. Os pronomes são seus nomes. Ela, professora, com o pai morto há apenas três dias, não tem mais ninguém no mundo. Diante de tal situação, Ele se propõe a cuidar d’Ela enquanto for vivo. Este é o início de uma estranha relação.
Os dois se trancam numa casa e Ele passa a ditar verbetes de dicionário para Ela escrever. Em seguida, tem início uma longa sessão de fotografias, quando seios, coxas, bumbum e xana de Negrini são mostradas artisticamente. Por mim, preferiria que a sessão fosse mais hardcore. Não sou fã de nu artístico. Depois disso, um impertinente rato começa a roer as tais fotografias. Ele, o homem, ensopa a casa de ratoeiras de todos os tamanhos e nada do rato resolver comer o queijo e se ferrar. O rato quer comer Ela. E come. E como. As sequencias do roedor passeando pelo corpo e fazendo sexo com a protagonista são de arrepiar. Puro Bressane. Ela se excitando e gozando e levando junto as testemunhas do filme. Concluindo, Ele inicia outra sessão de fotos. Dessa vez com um esqueleto, humano. Júlio quis jogar com os dois símbolos que mais causam ojeriza à humanidade: o rato e o esqueleto. Mas, calma. Não é um filme escatológico como o detestável A Mosca, por exemplo, que embrulhou meu estômago.

A Erva do Rato não tem nenhum destaque especial esteticamente falando. Minto, desculpem. Tem sim: Alessandra Negrini. Mas o que interessa para Bressane é a simbologia das imagens. Signos fílmicos eisensteinianos. Em suma, semiótica. É essa palavrinha o sustentáculo da obra bressaniana, desde o clássico udigrudi O Anjo Nasceu. Inclusive a trilha é pelo mesmo maestro e compositor Guilherme Vaz. A bela direção de fotografia está entregue ao mestre Walter Carvalho. Já as atuações de Selton e Alessandra são medianas, frias, distantes, como o filme. Sem fogo. A Erva do Rato não é para todo mundo. É só para quem tem algum negócio com o cinema de Bressane. Particularmente, prefiro a erva do diabo. Ah, este post/isto posto não é uma crítica. Apenas um comentário, crítico.