sexta-feira, 11 de junho de 2010

O combinado

"O bebedor de Absinto", de Edgar Degas
Dia desse desenxabido resolvi seguir o conselho de uma amiga e não hesitei em provar um combinado que ela disse tratar-se de uma mistura de Fluoxetina e Absinto. Do Absinto, amigo e inseparável, sabia das propriedades e do sabor. Da Fluoxetina, nonada. “São” Google resolveu a questão. Agora, sei que o medicamento de nome esquisito é um ansiolítico e antidepressivo, comercializado durante anos com o nome de Prozac. Blá-blá-blá.
Tomei o combinado e chamei o elevador. No andar inferior, entrou um casal com uma criança... sem olhos. Até aqui, tudo normal, pois eu não mais distinguia a realidade da fantasia e o real do imaginário. Achei muito criativo quando a criança enfiou dois lápis coloridos nos orifícios oculares, o que me levou a crer que estava diante de Dona Baratinha.

Elevador no térreo, cumprimentei a família e saí do prédio sem rumo para flanar. O lance maior era curtir o barato. Logo, começaram a passar por mim pessoas normais, como o homem com duas cabeças, a mulher serpente, um cachorro que voava e formigas gigantes que devoravam pés inteiros de centenários Ficus benjamina. Bacana era ver a Medusa e a Hidra de Lerna fazendo palavras cruzadas no pino do meio-dia, na Avenida Central. Encantou-me o esoterismo dos dois seres mitológicos e o inusitado da situação.

Ao caminhar ao longo da extensa Avenida vi uma galé com suas dezenas de remos de centopeia navegando próximo a mim num mar plúmbeo sem as brancas ondas. Sorri e respondi ao aceno dos políticos que mesmo presos aos grilhões fingiam felicidade. Chegando à esquina, deparei-me com uma bela mulher... sem cabeça. Fiquei estupefato com o charme, desenvoltura e elegância daquele colosso feminino. Hum, pensei comigo, quem sabe não é chegada a hora de retomar as atividades romântico-amorosas.

Investi meu latim num xaveco até, certo ponto, decente, e consegui levar a mulher misteriosa para o matadouro público. Lá não havia sangue, nem fezes de animais abatidos. Era tudo muito limpo, asséptico e, diria, assustador. Comecei a envolver-me com a bela dona sem cabeça, quando senti a deusa cravar os dentes no meu pescoço. Sim, eu havia conquistado uma vampira. A dor foi intensa, a ponto d’eu sair correndo daquele lugar sombrio, decepcionado com o desfecho da minha conquista amorosa.

Abatido, continuei meu périplo pelas ruas da cidade movido a Fluoxetina com Absinto. Nunca mais consegui discernir realidade de fantasia, real do imaginário. Viajar é preciso, e foi nisso que passei a acreditar quando tomei o combinado. O mundo era meu e isso ninguém podia me negar ou tirar. Nem me mandando para a galé.

14 comentários:

  1. Beijai-me agora, e muito, e outra vez mais,
    Dai-me um de vossos beijos saborosos,
    E depois, dai-me um desses amorosos,
    E eu pagarei com brasa o que me dais.

    Com mais dez beijos longos, langorosos,
    E assim, trocando afagos tão gostosos,
    Gozemos um do outro, em calma e paz.

    Eu viva em vós e vós vivendo em mim.
    Deixai que vague, pois, meu pensamento:

    Não dá prazer viver bem comportada;
    Bem mais feliz me sinto, e contentada,
    Quando cometo algum atrevimento.


    Louise Labé
    1524-1566

    Passando e colhendo a magia e os mistérios deste espaço iluminado.
    Adorei o texto!!!
    Com carinho da Fada do Mar Suave.

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  2. Paulo,
    Na minha terra tem um ditado, que diz tudo, que é assim: combinado não é caro. Mas tem que combinar direito antes, depois é sempre tarde pra ir ao Procon...
    Absinto-me sempre bem quando venho aqui ou você vai lá no Canto Geral, combinado?

    Abraço mineiro,
    Pedro Ramúcio.

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  3. Fada, obrigado pela visita.
    O poema da Louise Labé é digno de nota.
    Receba meu abraço e minha admiração.

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  4. Combinado, Pedro.
    Seu Canto Geral é alvo do meu interesse. Sempre.
    Obrigado pela visita e ótimo fim de semana.

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  5. Que visões, que absin-timentos, absinto-rmentos... Real, não-real... Onde a fronteira?... Penso no Guernica, de Picasso. Um desmantelamento de formas. Assim ele via o 'real': deformado... E o mundo está cheio de pessoas 'sem rosto'... As crianças, ensinadas a não ver. Seu texto é (quase) uma alegoria, Paulo.
    Um abraço, amigo.

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  6. De fato, cara amiga, é uma tentativa alegórica.
    De vez em quando gosto de ver o mundo distorcido.
    A realidade é muito dura... e apavora.
    Obrigado pela visita.
    Forte abraço.

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  7. Paulo Jorge

    Deliciei-me com o seu texto todo prenchido de imagens surreais. É preciso que se escreva coisas assim! Tudo que fica na linha de fora do convencional, me agrada. Imagine, então, quando é de sua autoria... Bravo!!!

    Como sou medrosa, hipocondríaca, não vou arriscar uma dose do combinado, mas que dá vontade, dá, meu amigo...
    Bem, fico aqui com o meu insignificante alprazolan 0,25...rs...

    Grande abraço, querido!
    Uma linda semana para você!

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  8. Muito espirituoso seu comentário, Zélia.
    Forte abraço.

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  9. Olá...
    Encontrei seu Blog por acaso.
    Achei muito lindo seus poemas.
    Parabéns !!!

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  10. Simplesmente maravilhoso

    E eu sou suspeito em falar sobre Absinto...

    abraço meu caro

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  11. Valeu, Chiara.
    Obrigado pela visita.
    Bjins.

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  12. Juan, sabe, nunca tomei Absinto.
    Um dia provarei a Fada Verde.
    Abração e obrigado pela visita.

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  13. Paulo,

    seu itinerário, tal um Adof Huxley, é como travessia. E se nonada antes havia, ao menos a alma ficou mais polida.

    Forte abraço, grande leitor da realidade subjugada!

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