terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O eco da oca ribomba na avenida


O batuque é cadenciado e monótono. Nem por isso menos encantador. Ao bater dos tambores e ao chacoalhar dos maracás na avenida Duque de Caxias, na Ribeira Velha de Guerrra, todos identificam a tribo de índios do carnaval natalense como mais uma performance no asfalto do desejo. Seminus, os nossos bravos indígenas do Século XXI remetem aos primórdios da civilização no Rio Grande do Norte, onde nasceram, cresceram e morreram Potiguaras, Tapuias e Tupinambás.


O rito do caçador flechado é um doce acerto de contas com o colonizador e uma homenagem aos antepassados que habitaram nosso Estado em priscas eras. O sangue do caçador é o sangue simbólico das tribos massacradas pelo homem branco (in)civilizado e predador. Mesmo criatianizados pela Santa Madre Igreja Católica Apóstolica Romana, os nossos fantasiados silvícolas do reinado de Momo mantêm a tradição quase secular e a afirmação de estarem vivos e ativos na multiplicação cultural do carnaval natalense.


Hors concours é um nome pomposo demais para a tribo Potiguares chefiada por Raimundo Brasil, símbolo maior do nosso carnaval de cocar e pajé da tribo. Na sua elegante simplicidade, o patrimônio imaterial da cultura norte-rio-grandense exorciza a tristeza e comanda a alegria de desfilar mais um ano junto a seus pares de Rocas. Homenageado da Prefeitura de Natal em 2008, o pajé não adormece nos louros do preito. Trabalha "mais do que promete a força humana" para prorcionar todo santo/pagão ano um carnaval digno da tradição das tribos de índios.


O observador mais atento ainda divisa no corredor da fantasia e da imaginação animais silvestres cenográficos, índias iracêmicas, com suas vergonhas cobertas, tocando flautas, maracás e tambores ou mesmo portando arco e flecha para dançar a dança - perdão pelo pleonasmo - ritualística no asfalto. Jatos de gelo seco realçam o efeito de luz dos canhões instalados no final do percurso. Também afogam o olhar do visitante a dança do fogo, a da festa e a dança de beber cauim. Pajé, feiticeiro, caçador, enredo, originalidade, figurinos, alegorias e tempo são quesitos observados pelos 12 jurados do desfile. No mutirão da solidariedade tribal, amigos, familiares e agregados das nove tribos de índios se irmanam no trabalho mirando o tão cobiçado troféu de campeã. Menos Raimundo Brasil e os Potiguares. Eles são Hors concours. Lembram?


Em tempo: Hors concours, cuja pronuncia é /ór concur/, é uma expressão de origem francesa que tem como significado “fora da competição” ou “fora do concurso”.

2 comentários:

  1. mãos ao alto
    índios no ritual
    do falto

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  2. Pedra-de-toque: versos entre versos.
    No Balaio de hoje, você e outros.

    Um abraço.

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